Deus triste
Deus é triste.
Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.
A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.
(Carlos Drummond de Andrade)
A inconstância é um direito de todo homem, inúmeros poetas do século XX foram comunistas durante a juventude, anos depois se desligaram dessas convicções. O poeta tem como virtude central essa constante mudança de opinião, a possibilidade de opinar, sem que essa seja sua opinião particular.
Levanto a partir disto uma questão interessante, sendo a fé, um dos muitos sentimentos desenvolvidos pelo homem, por que estaria ela isenta dessa possibilidade de mudança constante? E seria dado apenas ao poeta esse direito de mover sua opinião conforme os ventos que sopram em sua cabeça?
As ligações entre os autores e sua religiosidade são mais úteis em campanhas publicitárias do que de fato influenciam em sua obra. Parece ser prazeroso a um grupo de ateus afirmar que X e Y não acreditavam em Deus, assim como para certos religiosos é quase um prazer sexual afirmar que X e Y eram fiéis seguidores, ou melhor ainda, que um dia foram ateus, mas se converteram por temerem os castigos divinos.
Pois bem, a intenção desse post não é afrontar a religiosidade de ninguém. Quero apenas perguntar, seria o poeta um ser sem identidade? Já que apresenta sempre essa mudança de opiniões em seus textos, uma hora Deus morreu, outra hora pede resignação. Seria a fé um sentimento incogitável, imutável? Então por que o mesmo não funciona com o amor, com a felicidade, com a saudade, já que para todos eles permitimos essa constante metamorfose. Em um segundo Maria deixa de ser a mulher amada e passa a ser uma infiel, dias depois retoma a seu posto de musa inspiradora.
As Litanias de Satã
“~*~
Oração
Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender! “
(Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Trecho)
Seria a fé um sentimento que acorrenta o homem? Então por que o poeta nunca se encontra preso a esses grilhões?
Esse é um assunto que me interessa bastante, e fico feliz em poder fazer as honras do primeiro comentário.
Bem, vamos lá. Acho que um dos grandes problemas da fé, em diversas formas que se apresenta, é que ela geralmente vem de berço, e se cristaliza na mente do indivíduo como uma parte quase inseparável dele. Mas acontece que, conforme o ser vai tendo experiências, conhecendo outras perspectivas, enfim, conhecendo, passa muitas vezes a ver seu castelinho de fé começar a tremer, e muitas vezes a pessoa se encontra tão parte daquilo, seja pelos pais e amigos, seja por hábitos cotidianos, que se sente, ou com muito medo de negar a fé e ver todos seus outros alicerces o rejeitando (o que muitas vezes acontece mesmo), ou muito fraco para começar de novo. Não dá para condenar por completo quem age assim, afinal há muito em jogo, mas é de se admirar quando um indivíduo consegue negar a esse sentimento e passar a se guiar por algo que lhe satisfaz mais. Acho que, no geral, isso acontece com qualquer tipo de crença, mas quando se trata de fé, o que nos remete de imediato a algo mais poderoso do que qualquer super-heróis que já tenhamos visto na tv, o sentimento de impotência é ainda mais esmagador, até porque, no fim das contas, se você nega a sua fé, vai passar também por um momento em que vai se questionar se isso é mesmo inteligente, já que, no fim de cada negação da fé há um inferno de coisas más lhe esperando, ó pobre fiel.
Mas discordo que o poeta não se encontre preso aos grilhões da fé. Particularmente não conheço nenhum poeta estritamente religioso, ainda mais agora na “era moderna”, onde, apesar de muita resistência da superstição e do misticismo, o mundo parece estar bem menos assombrado, mas acredito, sim, que mesmo os poetas mais “cabeça aberta” já titubearam e mesmo ocultaram certos trabalhos “profanos” à suas crenças. Ou nem mesmo pensaram nesse tipo de coisa, afinal, se o que vale é a intenção, e Deus sabe tudo o que você pensa e faz, melhor nem arriscar. Acho que não vale muito a pena usar os poetas pós-modernos como exemplo, porque no fim das contas, a maioria eles nem sabe porque estão escrevendo, só acham que estão destruindo tudo aquilo que já foi “lei” um dia e reinventando a roda.
Quanto aos prazeres gerados entre o sagrado e o profano, acho que varia de caso para caso. No caso da poesia, acredito que, no geral também, o poeta não se atém estritamente ao tema Deus; assim como nunca vi a Liga dos poetas de Cristo, também nunca vi a Liga extraordinária dos poetas ateus. Em outros campos, como a ciência, por exemplo, o buraco é mais embaixo, já que até o Renascimento o mundo era todo assombrado, e guiado pela fé, e depois dele, a fé ganhou um concorrente a altura. Acho que dái vem essa preocupação (talvez) do Gustavo com o tesão gerado por uma conversão ou perda de fé. Acho que essa guerra entre o misticismo da fé e a razão do secularismo ainda vai dar muito o que falar, e acho que talvez nunca acabe, já que ambas usam argumentos muito fortes. Eu particularmente não gosto dessa coisa de “fulano era crente e agora é ateu. Aê, carai!” ou vice-versa, mas também acho que, se é para fazer guerra, tem que ser barulhenta. A guerra na surdina eu deixo para os corações dos ímpios e infiéis. Enfim, o ponto é que, até onde vejo, a poesia nunca se interessou muito por essas questões, ou ao menos não de maneira mais efetiva e constante.
Sobre a imutabilidade da fé, e os conflitos gerados quando se tenta essa mutação, também acho que isso ficou mais evidente na era moderna, já que com ela os conflitos entre a alma e o corpo passaram a açoitar mais a mente do homem, que anteriormente só pensava na alma. Exemplo mais factual disso é que, por exemplo, não se tem muito conhecimento sobre ateus na Idade Média. Claro que existiam, mas não se pronunciavam, por medo da fogueira e (essa é uma impressão puramente arbitraria e pessoal) também porque não tinham um outro bom parâmetro para “comparar” ou rivalizar, e mesmo justificar sua descrença. Claro, esses comentários nos remetem a uma Idade Média ocidental, que é a de que estudamos mais.
Por fim, “creio fervorosamente” que a fé acorrenta o homem. Seja pelo medo, pela repressão de sua natureza, ou pela malvada promessa de uma vida melhor depois dessa.
Bem, acho que é isso. Agora é com vocês, irmãos! Libertem os krakens dentro de vossos corações, homens de pouca ou muita fé. Amém!
Caro Thiago, estou hoje disposto a ocupar o lugar de advogado do diabo. Então vamos começar o embate.
Concordo com boa parte do que você disse, mas tenho alguns pontos para fazer ressalvas.
Primeiro, o sentimento de fé não está ligado ao cristianismo apenas, contudo, para dar uma espinha dorsal para nossa conversa vou tomar o cristianismo como referência. De fato a ausência de fé durante algum momento na vida geraria no fim dela uma punição, conforme as visões mais conservadoras da religião, mas o que quis demonstrar sobre o tema fé, foi a relevância dela como sentimento estando desligada dos dogmas religiosos. A fé é um sentimento semelhante a esperança, só que ela se atém a um apelo extra-terreno, digamos assim. Se isso traz algum consolo ainda que momentâneo, não seria benéfico? Qual a diferença em rezar e se conformar e tomar umas doses de uisque e se conformar?
Ri muito com a história dos poetas modernos reinventarem a roda,kkkkkkkkkkkkkkk. Mas esse comentário me fez refletir sobre o segundo ponto em que discordo de seus argumentos, sempre que vejo alguém criticar a fé, essa pessoa toma como referência os males que a religião impôs à humanidade nos séculos passados. As fogueiras, as perseguições e todo o resto que baseava-se em ensinamentos tomados pela fé, não são talvez pontos de referência para falarmos sobre a importância desse sentimento. No passado o homem subjugava a mulher por convicções impostas pelo ciclo social que participava, seria justo hoje a mulher subjugar o homem como retaliação do passado? Os argentinos devem ainda ir em busca da vingança contra os espanhóis?
De fato o poeta moderno não é a melhor referência para o conflito com a fé, já que o mesmo convive num momento de grande bagunça ideológica. Mas a pergunta que quero trazer como ponto central, o que diferencia a fé, de outros sentimentos, como esperança, amor, compaixão, ódio? Por que os outros não são repugnáveis?
Quando eu me referi às práticas da Igreja cristã foi só para tentar nortear a ideia de fé, mas de fato, fé não está só ligada ao Cristianismo. Mas acho que em essência, o problema fundamental da fé, e para mim é o que a difere dos outros sentimentos, é que ela cobra um preço muito grande pela fidelidade, e também porque ela mostra seus dois lados, de certa forma, à priori. Por exemplo, o amor, ódio, esperança, são sentimentos que você torna na prática sem saber bem o que pode acontecer à posteriori, mesmo que tenha alguns indicativos, coisas óbvias até. Para esclarecer, vou usar seu exemplo. Se eu estou na merda e bebo, de certa forma, eu sei que vou continuar na merda, mas penso que pelo menos enquanto estiver doidão vou estar “livre” do problema. Ao contrário, se eu rezo, posso até ficar conformado, e vou esperar que melhore, mas estarei sempre com aquele medo oculto de que, se as coisas não melhorarem, será porque eu não sou um bom fiel, e não só porque “Deus quis”, entende? Afinal, seguindo os preceitos da fé, e nesse ponto a maioria tem isso em comum, eu estou sempre “uma perfeição” abaixo da divindade na qual deposito minha fé. Isso coloca na mente da pessoa um peso muito grande. Acho que, em suma, é isso; o maior problema da fé é o fardo que ela coloca sobre o que a adota para si.
Quanto aos problemas do passado, usei os séculos passados para ilustrar o quanto já melhoramos com relação ao “assombro” da fé. Mas ainda hoje, claro, tem muita escrotice sendo feita em nome da fé, e até aquilo de bom que deveria ser feito em nome dela, além da “motivação forçada” que pode haver por trás das práticas, estão sendo usadas bem mais como negócio, como propaganda do que como prática efetiva de “bondade”. Não acho que seja uma questão de vingança, é uma questão de suplantar o mal causado, é minimizar os assombros.
Thiago Silva
Mas ai está meu caro, o que quero tentar elucidar é justamente o preço do sentimento, se assim posso dizer. Quantos “amores” terminam em desilusão e até mortes, quantos finais são trágicos, tendo como início da história “bons sentimentos”, o que quero dizer é que o preço a que você se refere, de uma possível condenação final, após a aceitação da fé não é coisa muito distante com os outros sentimentos. Amar é um trabalho muito árduo, complexo e irritante, e por vezes realizaidor, mas é justamento esse trabalho constante que faz com que ele seja prazeroso quando dá certo.
Estaria a fé condenada apenas por estar vinculada ao passado desonroso das igrejas?
Na minha cabeça fé e religiosidade podem ser coisas totalmente separadas. Não me considero religioso, muito menos fervoroso em algo. Pra mim, fé se refere á uma crença muito arraigada, você pode ter fé em várias coisas. A sua fé em um comprimido de farinha, no caso do efeito placebo, pode lhe curar de alguma doença. Não é nenhum fenômeno sobrenatural não, é comprovado cietificamente. Religiosidade se refere a crença em alguma doutrina que se utiliza da sua fé nas entidades, sejam quais forem elas, para garantir que você seja “fiel”. Também sua fé em um mundo além-vida, vida eterna, enfim. Sua “fé” nos dogmas incontestáveis.
No caso da arte, concordo sim que os poetas antigos, romanticos, até ultraromanticos, os artistas clássicos, se oculpavam muito mais dessa questão. Como já falei em outra discussão, a arte contemporânea reflete esse nada que restou após a “derrocada” de Deus e do questionamento dos dogmas. Ficamos sem referencias, muitas vezes jogados num niilismo negativo, apenas alegando que somos contrários á religião, mas sem ter nada que se possa por no lugar, ou aplacar a angústia que decorre do abandono dessa crença que é plantada em nós desde os primordios da nossa existência.
Porém o poeta, o artista, sempre estará implicado nisso, seja quando nega, seja quando anarquisa com os simbolos religiosos. A menção por si só já diz de uma conflito relacionado. Acho que, mesmo na arte contemporânea, essa temática aparece sim. Querendo ou não, a espiritualidade e a religião são temas que sempre farão perte das nossas vidas, isso é inegável. A minha visão expressa em uma arte, mesmo que essa arte não diga manifestamente nada sobre a religião e Deus, já contém, pela sua forma e o que traz na sua “feitura” cognitiva e institiva, algo latente das minhas concepções ou “não-concepções” do que seja esse mundo místico, cheio de promessas, pecados e punições, que por vezes fere nosso narcisismo e nossa noção de idependência.
Repito, não me considero religioso, e nem muito “espiritualizado”. Muito ou nada. Mas é impossivel se desvencilhar totalmente disso quando se foi criado num meio regado por esses valores e crenças. Talvez se eu tivesse nascido numa familia de ateus eu nem me preocupasse com isso. Ou talvez virasse um fanático religioso!, rs………
Não acho também que a arte contemporânea quer puramente quebrar com tudo, sem saber o que está fazendo. Isso é uma generalização. Acredito nas exeções. Mas é um impasse incrivel, pois parece que tudo já foi dito e feito, e parece que cada época e seu contexto histórico tiveram sua própria forma de fazer arte, então chegamos agora e estamos nessa procura, fazendo um pouco de tudo, sendo um pouco clássicos (retrô), um pouco modernos, ao mesmo tempo correndo atrás de uma um pouco utópica “nova forma” de se dizer e fazer o que já foi feito antes. Afirmando o que achamos o correto e criando a partir disso. Acho que saudosimo demais também não é muito útil, pode astacionar o porvir de algo bom. Temos que tomar conhecimento muito mais profundo do que está sendo feito e o que procuramos fazer, para falarmos com mais propriedade sobre a produção artistica atual. Repito, sem generalizações ou tomando com exemplo as referencias mais gritantes e, sim, ultrajantes em alguns aspectos. Procuremos o que está escondido, sempre foi assim. Não é fácil.