A entrevista que segue foi publicada em 1989 na Crisis, uma revista de vida curta (1988-1989) e de pouca circulação, mas fundada e chefiada por um dos maiores jornalistas brasileiros, Faerman. Conhecido principalmente por seu trabalho no Jornal da Tarde, durante a década de 70, e como fundador da revista Versus (1975-1979), referência na historia da imprensa brasileira alternativa, Marcão morreu em 1999 aos 55 anos.
No ano do centenário de Quintana (1906-1994), esta conversa informal é uma pequena homenagem de Terra Magazine a uma grande figura.
Fernanda – Mario, poucas pessoas falam com tanto carinho de uma cidade como tu falas de Porto Alegre – tens poemas sobre as ruas, as casas, a cor do céu da cidade, o pôr-do-sol… Tu continuas caminhando por Porto Alegre?
Mario Quintana – Continuo caminhando aqui por perto, né? Quando posso eu vou mais longe. Até escrevi uma coisa, “enquanto eu vou andando pela cidade as velhas casas me reconhecem, as casas novas não sabem quem sou”.
Tu tens escrito muito?
Tenho. Eu escrevo sempre. Estou sempre ocupado porque a editora me encomenda todos os anos aquela agenda que eles chamam de Diário Poético. Já estou fazendo agora a agenda para 1991, só faltam 60 e poucas páginas. Ali vou escrevendo coisas, coisas tiradas de livros antigos, coisas que eu invento na hora. Mas fora isso, tenho feito poemas, já publiquei um livro este ano. Geralmente, depois do café da manhã eu começo a escrever. Mas não tenho mais a mesma capacidade de trabalho, né? Depois de umas três horas eu me canso, almoço e me deito. Depois eu vou até a pracinha com uma das gurias, ou vou até o Parcão (NR: Parque Moinhos de Vento, muito freqüentado em Porto Alegre). Mas, com o tempo, ficou mais fácil escrever. Já sai da forma mais ou menos definitiva, não trabalho muito em cima. Eu não gosto é quando me encomendam poemas. A melhor receita para fazer um mau poema é fazer por encomenda.
E, atualmente, existe algum tema que tenha te interessado em especial?
Nada definido. É o dia-a-dia, as coisas que me ocorrem, estas idéias que brotam pelo ar. Eu acho que são as idéias que andam pelo ar e pousam na cabeça da gente. Sabe como é? Porque é uma coisa que vem de repente, é o que chamam de inspiração. São uns passarinhos que andam pelo ar.
E o humor, Mário? Tu és uma pessoa super divertida, e isso é aparente no teu trabalho.
O meu humor, também nos meus poemas, é uma coisa para disfarçar o sentimentalismo. A gente tem pudor de ser sentimental, de ser muito romântico, então recorre ao humor. Agora, poeta puro mesmo, que eu conheci, que não recorria ao humor como Carlos Drummond de Andrade ou como Manuel Bandeira, é a Cecília Meireles. A Cecília não usava o humor e tinha pavor das comparações. Ela dizia que uma comparação como, por exemplo, “assim como”, “porque”, dividia o poema em duas partes, a realidade propriamente dita e a outra parte que é a aura da realidade, e tudo devia estar junto. Uma vez eu escrevi um quarteto – parecia que ia sair um soneto, mas então eu só tinha um quarteto – e mostrei a ela. O soneto começava assim “como essas coisas que não valem nada e parecem guardadas sem motivo, alguma folha seca, uma taça quebrada, eu só tenho valor estimativo”. E ela disse para mim “mas Mário, por isso é que tu estás tão desmilingüido – comendo folhas secas e taças quebradas”. Aí parei com o soneto, só terminei 40 anos depois.
Há alguns anos, tu citaste Camões, Dostoievski, Proust, Virginia Wolf e Garcia Lorca como alguns dos teus autores favoritos. Eles continuam sendo os teus “escolhidos” ou existe algum novo autor que tenhas descoberto?
Olha, eu tenho mais relido. Porque a gente chega a uma certa idade e tem medo das novidades, dos falsos best-sellers, das coisas que nos impingem. Quando quero ler uma coisa boa eu releio Machado de Assis, releio o Padre Moraes Bernardes, que eu acho um grande prosador, gosto muito dele. E sempre li muito os franceses. O Guillaume Apollinaire é o poeta francês que eu gosto mais, sinto afinidade com ele. Porque não há propriamente influência literária de um autor na gente, há confluência. Se eu não me parecesse espiritualmente com ele, não gostaria dele, não é mesmo? Há uma confluência. Este pessoal tem mania de descobrir influências na gente. Imagina que chegam a dizer que as obras de Shakespeare não foram escritas por ele. São espécies de invejosos póstumos, devem ser os bisavós, os antepassados daqueles que começam a descobrir na obra da gente influência de outros autores. Dos escritores mais novos eu gosto daquele Ray Bradbury, o autor das Crônicas Marcianas. Eu tenho um poema dedicado a ele. (Para Mara: Onde é que está o livro que tem o poema?) Esta moça é a minha memória, sabe? Porque eu estou perdendo a memória. Esqueço os nomes. Às vezes eu estou falando com uma pessoa e não me lembro o nome dela, os nomes se descolam da cara. E as Crônicas Marcianas, tu leste? Não? Então perdeste metade da tua vida. É obra-prima de ficção científica de todos os tempos. Olha aqui o poema, lê.
O cinema sempre foi uma arte que admiraste muito, principalmente Fellini, Hitchcock e, em especial, os filmes de terror. Tu continuas acompanhando o que se tem feito no cinema ultimamente, ou mesmo revendo os teus filmes favoritos?
Eu não vou mais ao cinema porque um ambiente cheio de gente me dá falta de ar. Eu vejo o que posso na TV, quando levam filmes bons, dos meus artistas. No ano passado a TV Guaíba passou, em gentileza a mim, um filme da Greta Garbo. Nem me lembro o nome, é aquela comédia que se passa na Rússia.
Não surgiu mais ninguém como a Greta Garbo, então?
Não. O que ela tinha de extraordinário era a personalidade. Porque geralmente, numa mesma época, todas as pessoas têm a mesma cara. A cara é igual, mas a personalidade, que é uma luz que vem de dentro, é que faz a beleza das pessoas. É fato. Senão todos os velhos seriam horríveis, ninguém poderia olhar para eles, porque todos os velhos são deformados. Um olho às vezes fica mais para baixo, como este meu está…
E os filmes de terror, Mário?
Olha, é o gênero que eu gosto. Dizem que tudo é a mesma coisa, mas eu comparo as diversas versões, os diversos Dráculas, eu vejo qual é o melhor. Qual o melhor Dr. Jeckill e Mr. Hyde… E tu reparaste que, no cinema, quanto menos recursos técnicos há, melhor é o filme? É fato. É o mesmo que nos circos. Nos circos modernos há excessos de milagres. Isto atrapalha. Naqueles circos mambembes a gente acha graça em tudo.
Tu recebes muitas cartas dos leitores?
Eu recebo muitas cartas de crianças, é um caso de amor bem correspondido. A minha especialidade são as guriazinhas de sete anos, com uma porteirinha na boca (sem os dentes da frente). Uma delas me escreveu e disse “O Pé de Pilão foi o melhor livro que eu li em toda a minha vida”. Imagina, toda uma vida de sete anos! Outra, de oito anos, me mandou um versinho “quando soube de sua doença fiquei jururu, espero te ver logo pulando como um canguru”.
Deu para notar que as tuas secretárias são muito eficientes. Como é viver assim, tão protegido por essas meninas?
É bom, né? Porque eu não tive tempo de casar. Ou elas não tiveram tempo de casar comigo, não sei. Em compensação, tenho três excelentes mulheres para atucanar a minha vida. A minha sobrinha Elena, a Mara e a Sandra.
Além da Mara, que tu conheceste numa casa lotérica, alguma vez já acertaste a loteria?
Uma vez eu ganhei, mas não tinha dinheiro para comprar o bilhete. Eu comprava sempre o 10444, mas um dia cheguei mais tarde, porque tinha ido ao banco pegar dinheiro, e um camarada que também comprava o 10444 tinha levado o bilhete inteiro. E deu este número. Mas isso não tem importância. Às vezes também há golpes de sorte. Quando eu vim para Porto Alegre, fui fazer o exame de história no colégio e estava com um bruto medo de que me caíssem as Capitanias Hereditárias, aquele troço muito chato, uma complicação terrível, ou coisas assim como a descrição física e política do estado de Pernambuco… Para acabar com a inflação da espera, abri um livro de História do Brasil e li a parte sobre a Independência Mineira. Quando terminei de ler a última linha, fui chamado. O ponto foi sorteado: a Inconfidência Mineira. E o examinador era Souza Doca, um mestre da história do Brasil. Eu simplesmente contei a história que tinha lido, contei aquelas coisas que ninguém sabe, e quando eu terminei ele se levantou e me deu os parabéns. Cheguei a ficar com remorsos. É dessas coisas da vida. Coisas que acontecem. Tem aquele poema famoso do Rudyard Kipling, If, que diz mais ou menos assim: “meu filho, se não te atormentares com estes dois impostores, o fracasso e o sucesso, meu filho, serás um homem…”.
Tu gostas do que as pessoas escrevem a teu respeito, ou sobre a tua obra?
Dizem muitas inverdades, erram, divagam, mas é melhor deixar, não é? Porque estar me preocupando comigo mesmo. Eu conheço as minhas possibilidades e as minhas limitações, o que dizem sobre mim não tem importância. Não influi.
Olha, Mario, acho que é isso.
É? Eu não disse muita besteira?
Claro que não, eu é que devo ter perguntado muita besteira. Aquelas coisas que sempre te perguntam…
Tem uma pergunta que as moças sempre me fazem: porque não se casou? Eu tenho a resposta pronta: porque elas fazem muitas perguntas!
Ainda bem que essa eu não fiz!
O que eu acho é o seguinte: não gosto de perguntas íntimas porque acho que a minha vida particular não tem nada a ver com a minha vida pública. Eu estou nos meus livros. E vou te dar um livro, posso?
[...] Mario e Fernanda [...]
Que delícia ler essa entrevista! Humm, acho que vou reler várias vezes!
um abração!
puta merda, cara…..tenho que ler o Ray Bradbury logo…ele já tá na minha lista faz um tempo e até agora nada…
mais uma vez muito boa essa entrevista…
abraço!
Foi assim que conheci Ray, depois disso nos tornamos companheiros de boas histórias. Vale muito a pena.